Injetar combustível na sua casa? Com o V2G é possível!

O veículo elétrico trará uma quebra de paradigma do setor automotivo, tanto de produção quanto de comportamento dos usuários. O coração do veículo deixa de ser o motor a combustão e passa a ser um sistema de armazenamento de energia, o condutor deixa de se deslocar para comprar combustível, mas abastece seu veículo em sua própria casa, como um eletrodoméstico qualquer. Não há mais volta, dizem os especialistas do setor, o veículo elétrico veio para ficar. A flexibilização que os VEs nos trarão ultrapassam a barreira da mobilidade, influenciarão na organização social, a partir de mais sistemas autônomos, e principalmente no modo como interagimos com a energia elétrica.

O seu veículo ter como combustível a energia elétrica disponível na sua tomada significa dizer que a conversão é direta entre minutos de banho, lâmpadas acesas e quilômetros de autonomia, o que talvez traga mais conscientização no uso da energia elétrica.

A energia consumida em um banho de 10 minutos é a mesma que em um deslocamento da Marginal Tietê até a Av. Paulista.

Por outro lado, a conversão contrária também é unitária, ou seja, alguns quilômetros de autonomia equivalem a minutos de ar condicionado ou aquecedor. Em um futuro não muito distante os donos de veículos elétricos poderão fazer esses trade offs diariamente, acrescendo ou descrescendo a autonomia do seu carro em troca de mais conforto ou economia. A tecnologia por trás disso é o V2G (vehicle-to-grid).

O V2G é um mecanismo que permite ao veículo devolver energia do sistema de armazenamento à rede elétrica, e isso pode ocorrer por diversos fatores: incentivo financeiro, balanço de carga no sistema, auxílio no controle de parâmetros da rede.

Nesse contexto, o entendimento de um veículo elétrico deixa de ser de um equipamento de mobilidade, mas sim de uma bateria que também pode ser usada para mobilidade. Do ponto de vista energético, teremos uma flexibilidade crescente, pois podemos retirar elétrons de um ponto da rede e injetar em outro ponto, mesmo que parte de um sistema independente, e isso trará desafios e soluções de engenharia avançada.

Obviamente, estes sistemas iniciarão aos poucos e de forma controlada, além de não ser possível devolver esta energia em qualquer ponto de conexão, serão pontos previamente projetados para tal modalidade.

O V2G expressamente proibido no Brasil, pela Resolução Normativa 819/2018, e também temos somente um modelo de veículo elétrico no país que atende esta tecnologia, o Nissan Leaf.

A chegada do V2G no Brasil trará alguns desafios de gestão, modelos de demandas, identificação e mitigação de gargalos de distribuição, sistemas dinâmicos de proteção e comercialização. Mas também trará mais flexibilização no mercado de energia com a inserção deste novo agente, indo de encontro com a modernização esperada do setor elétrico.

Enquanto o V2G e todas estas complexidades não chegam no Brasil, nós (como movE e comunidade técnica) vamos ajudando a construir e arquitetar todo o arcabouço regulatório e a base de infraestrutura para embasar e impulsar o setor da mobilidade elétrica.

Por Rafael Cunha

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